SENTIMENTO



A filosofia existencialista é o locus de discussão de muitos temas pertinentes ao mais íntimo do ser humano. Essa forma de pensar a existência nos garante a abordagem de temas que nem sempre somos capazes de considerar, pois a angustia pode tomar conta do nosso ser diante deles. Pensar os sentimentos na perspectiva existencialista pode nos levar a um entendimento maior do que vivemos e possibilitar uma autenticidade efetiva diante dos mesmos.
O que está no interior da nossa pele somente nós temos experiência. Cada um sabe o que sente, o que vivencia, as alegrias e angústias, a felicidade e a tristeza, a paixão e o ódio. Isto parece ser bastante evidente, contudo, quantas vezes misturamos os nossos sentimentos com os sentimentos do outro? Sim, muitas vezes tornamos do outro as nossas angústias, ansiedades e tristezas. Em um relacionamento, é comum que um dos envolvidos considere que o outro irá sentir as coisas da mesma forma que ele está sentindo, que o amor é tão intenso quanto o seu. Isso causa frustração e aumenta o desespero e sofrimento característicos da paixão. Mesmo em amizades ou outros relacionamentos formais, podemos incorrer no equivoco de atribuir ao outro sentimentos que não são do outro, mas nossos, são nossas fantasias, imaginações e suposições. Isso dá uma configuração errônea à efetividade da relação, causando traumas e sofrimentos para as partes envolvidas. Grande parte das desavenças são o resultado dessa mistura de sentimentos. Tal acaba por deixar a comunicação truncada e torna-se motivo para desentendimentos e rompimentos traumáticos.
Analisar o que é próprio de si e o que é do outro toma uma importância significativa quando buscamos autenticidade em nossa existência. É um exercício de autoconhecimento, capaz de levar ao crescimento pessoal e melhorar em muitos aspectos os nossos relacionamentos.
Diante disso cabe considerar o papel da solidão, pois ela é um elemento característico da existência. Por mais que tentemos fugir da solidão, jamais seremos capazes de nos tornar uma só carne com o outro como tanto almejamos. O tornar-se uma só carne e uma só alma, colocado nas cerimônias de matrimonio, precisa adquirir o seu justo sentido e considerar o outro com sua individualidade, liberdade e subjetividade. No corpo o coração é distinto do rim, estão no mesmo corpo, mas possuem a sua especificidade. A solidão propicia o contato consigo mesmo e proporciona a aceitação de si mesmo. Uma solidão vivida com autenticidade e coragem confere o contato com os próprios sentimentos e a justa consideração do outro.
Viver os próprios sentimentos e saber analisá-los como distintos do outro só é possível na vivencia salutar e corajosa da solidão.

MUNDO DOS OPOSTOS

Heráclito e Parmênides são duas figuras de destaque no pensamento ocidental. Heráclito declarava que nada permanece, tudo muda. Nenhum homem pode se banhar duas vezes no mesmo rio, isso porque nem o homem, nem o rio seriam os mesmos. Tudo muda o tempo todo. Ele é o filósofo da mudança, o pensador dos opostos. Parmênides aparece como o seu contraponto, argumentando sobre a permanência de tudo o que existe. Para este pensador somos enganados pelos sentidos, nossa percepção é falha e nos mostra apenas os acidentes, pois a verdade é que tudo é igual, nada muda, os acidentes podem até mudar, mas a essência continua a mesma. Esses dois pensadores são emblemáticos da forma de pensar ocidental. Filosofias opostas que dão origem a novas formas de olhar o mundo. A oposição de argumentos sustenta a reflexão e suscita argumentos originais, ora se busca defender uma ou outra posição, ora se busca uma terceira via, tentando conciliar os opostos.
Na inauguração da modernidade Descartes irá continuar com o pensamento dos opostos, apresentando um mundo dividido em res cogitans e res extensa, o objetivo e o subjetivo, o material e o imaterial. Novos pensadores entram em ação e ora discordam, ora concordam.
Interessante observar que essas expressões de pensamento se perpetuam na construção do nosso contexto de vida. Conhecendo ou não estes filósofos somos influenciados por suas idéias em nosso modo de viver, pois elas criam o pano de fundo no qual se desenvolve a nossa existência.
No mundo hodierno a perspectiva de Heráclito pode estar mais presente do que podemos imaginar. As transformações são rápidas demais. Tudo muda o tempo todo, dando a impressão de que nada permanece. Os meios de comunicação se alimentam da mudança e correm atrás de novidades o tempo todo.
As novas tecnologias transformam a vida e se renovam com uma presa tal que quando uma é apresentada outra versão já esta sendo formatada.
O mesmo acontece com os sentimentos e com as relações humanas. São rápidas demais. Mudam o tempo todo. Nada permanece, tudo flui na correnteza do rio da vida.
Diante deste cenário da mutação, do devir inesgotável, acontece a manifestação da permanência. A sina dos opostos se perpetua. Essa perpetuação é poderosa, pois o permanente escolhe o mais profundo do humano para reivindicar o seu status. Assim que na violência do devir o mais intimo do nosso ser clama por constância, pela certeza de que algo permanece, a fim de mantermos nossa identidade.

EM BUSCA DA FELICIDADE. Da sua impossibilidade ou possibilidade

A vida humana é marcada pela busca incessante da felicidade. Todos os nossos atos só podem ter uma razão. A busca da felicidade. Queremos viver como se a felicidade fosse um ato continuo, como se ela perdurasse por todo segundo. É a marca do infinito que pulsa em cada vida. Contudo, a felicidade é marca, são pontos na corrente da vida, pontos mais fortes ou mais fracos, diferentes intensidades, mas nunca contínuos. Nossa felicidade é limitada, assim como tudo que tem a insígnia do nosso sinal. Mas é incrível o fato de buscarmos o infinito no traço finito da existência.
Diferentes formas de olhar para a felicidade demonstram qual a ênfase que damos para as marcas da felicidade. Quem muito olha para elas, para os pontos de felicidade na linha da vida, tem um olhar positivo e promissor, correndo para alcançar mais e mais pontos de felicidade, sendo os pontos diversos da felicidade momentos necessários para se alcançar a desejada felicidade. Quem olha para os pontos que não caracterizam felicidade tem uma percepção da vida mais melancólica, esperando da sua existência que ela se cumpra e desfrutando dos momentos de felicidade pragmaticamente, tendo-os como fluidos e acidentes da existência. Em uma ou outra percepção a ênfase se dá no infinito ou no finito da existência. Os primeiros convencidos que a caminhada da vida corre para uma plenitude de felicidade e os outros com a certeza que esta vida acaba em sua finitude, sendo o infinito um engano, uma forma que os fracos encontraram para sobreviver à fraqueza.
Ambas as formas de viver a felicidade movimentam a roda da vida e nos permitem respirar a existência. Imersos no mundo, compartilhando anseios básicos, há uma confluência de percepções sobre a felicidade, sobre os momentos brilhantes da existência. Assim seguimos todos, sob e égide da felicidade, na busca incessante da felicidade, ora tendo a sempre mais a frente, ora tendo a diante dos olhos. O finito e o infinito se unem para possibilitar a existência, manifestando no desejo de felicidade as razões da existência.